Um livro sobre o que sustenta uma civilização quando o barulho cessa — e sobre quem realmente somos quando o algoritmo perde o sinal e a consciência assume o volante.
“O maior desafio do nosso tempo não é tecnológico, nem econômico, nem político. É um desafio de desenvolvimento humano.”
Aos 58 anos, depois de quase quarenta anos dedicados ao serviço público — grande parte deles à frente de equipes e projetos de tecnologia —, Edvaldo de Alcântara Oliveira reúne em Descompasso as inquietações de uma vida inteira observando o poder de perto: o poder da tecnologia, o poder das instituições e o poder — quase sempre ignorado — que cada pessoa carrega sobre si mesma.
Guiado por Dedê — narrador, lente e espelho —, o livro atravessa três movimentos: a embriaguez de uma humanidade que ampliou sua potência técnica sem ampliar sua robustez interior; o delírio de um poder que aprendeu a produzir indignação, mas esqueceu de produzir confiança; e o despertar de uma consciência que entende que não existe piloto automático para a maturidade.
Descompasso não oferece respostas fáceis. É um convite direto — e por vezes desconfortável — para encarar a distância entre a velocidade do mundo que construímos e o ritmo, ainda humano, de quem precisa segurar o volante.
Há livros que descrevem o mundo. Há livros que denunciam o mundo. E há livros que desnudam o mundo, arrancando dele não apenas suas contradições, mas sobretudo seus autoenganos mais confortáveis. Este livro pertence à terceira categoria. E eu o escrevi sabendo disso.
Dedê — personagem, lente, consciência e espelho — conduzirá o leitor por uma travessia que não é apenas intelectual, mas moral. Este texto não foi escrito para agradar ao algoritmo de uma editora ou para se encaixar nos padrões de consumo rápido. Ele nasce de um lugar diferente: da experiência bruta e do silêncio necessário para processá-la. O que você tem em mãos é um testamento de ideias.
Aos 58 anos, decidi que a urgência do mundo moderno não ditaria o ritmo desta escrita. Busco revelar aquilo que a modernidade esconde sob camadas de tecnologia, velocidade e autopromoção: crescemos mais para fora do que para dentro. Ampliamos nossa potência técnica sem ampliar nossa robustez interior. Construímos máquinas capazes de mover montanhas, mas seguimos incapazes de mover o próprio ego.
Mais do que criticar, busco a coragem de dar nome a uma tese que muitos pressentem, mas poucos ousam nomear: a humanidade não sofre de falta de recursos, mas de falta de consciência; não sofre de incapacidade técnica, mas de fragilidade psicológica; não sofre de escassez, mas de desorientação.
Este não é um livro sobre política, psicologia, economia ou tecnologia — embora dialogue com todas essas áreas. É um livro sobre civilização. Sobre o que sustenta uma sociedade quando o barulho cessa. Sobre o que permanece quando as telas se apagam. Sobre quem realmente somos quando o algoritmo perde o sinal e a consciência assume o volante.
Ele exige de você aquilo que ele próprio defende: maturidade. E compartilha aquilo que a maturidade mais precisa: lucidez. Não espere que ele venha fazer um carinho na sua alma. Prepare-se para que toque a sua consciência.
Este livro foi escrito para adultos. Não no sentido etário, mas no sentido existencial. Para quem já viveu o suficiente para saber que as respostas fáceis custam caro. Para quem carrega cicatrizes que não cabem em currículo. Para quem já percebeu que a velocidade do mundo moderno não é sinal de progresso. Para o profissional que um dia olhou para a própria trajetória e sentiu que algo ficou para trás. Para o cidadão que se incomoda com o estado das coisas, mas ainda não encontrou palavras à altura do seu incômodo. Se você chegou até aqui esperando confirmação para o que já pensa, este livro pode decepcioná-lo. Mas se acredita que parte do problema mora no espelho, ele é para você.
Durante muito tempo tive o sonho de conhecer o mundo. As circunstâncias me mantiveram no chão que eu já pisava e hoje entendo que havia um desígnio maior nessa permanência. Se alguém me perguntasse agora se prefiro conhecer o mundo, eu diria sem hesitar: não, hoje eu prefiro que o mundo me conheça. Não por vaidade, mas por missão. Este é o meu primeiro livro — e escrever ele me ensinou que a escrita não é apenas um modo de dizer o que se pensa, mas de descobrir o que ainda não se sabia que se pensava. Pretendo continuar. Este livro é o meu passaporte. É a forma que encontrei de entregar o que aprendi sem precisar sair do lugar onde o meu dever me plantou.
— Edvaldo de Alcântara Oliveira
Este livro não é fruto de um momento isolado, mas de uma trajetória construída ao longo de anos, feita de encontros, aprendizados e experiências que, direta ou indiretamente, deixaram marcas neste trabalho.
Agradeço àqueles que cruzaram meu caminho no serviço público, com quem compartilhei desafios, decisões e responsabilidades. Foi na convivência diária, muitas vezes silenciosa, que surgiu grande parte das reflexões que hoje ganham forma nestas páginas.
Aos meus sobrinhos pela leitura "em primeira mão". De forma especial, à minha sobrinha Lorena, responsável pela criação da capa e projeto gráfico deste livro, cuja sensibilidade e olhar artístico deram forma visual a este trabalho.
À minha família — especialmente à minha filha, pelo apoio constante, pela compreensão nos momentos de ausência e por ser meu ponto de equilíbrio em meio às pressões e inquietações do cotidiano — e aos meus pais, minha gratidão mais profunda e mais antiga. Meu pai — trabalhador, honesto, justo — foi o primeiro norte que tive antes de saber que precisava de um. Minha mãe, que criou cinco filhos sozinha com a força silenciosa de quem não tem tempo para reclamar nem razão para desistir. Ambos me ensinaram que dignidade não é o que se tem, mas o que se faz com o que se tem. Tudo que este livro defende começa neles.
Aos colegas com quem dividi trincheiras no serviço público, às equipes que conduzi e pelas quais fui conduzido e aos cidadãos com quem participei de projetos, debates e iniciativas ao longo de quase quatro décadas: cada interação contribuiu de alguma forma para moldar o que hoje penso sobre pessoas, gestão de conflitos e sociedade.
A Deus, pelo privilégio da vida e pela graça de ter chegado até aqui com algo a dizer.
Por fim, agradeço ao leitor, que dedica seu tempo a estas páginas. Que este livro possa, de algum modo, provocar reflexão, inquietação e, quem sabe, novas formas de pisar e olhar o mundo.
Dedê tem cinquenta e oito anos. Para quem o observa hoje, sentado em uma poltrona confortável, envolto pelo silêncio de um lar conquistado com décadas de esforço, ele é a imagem da estabilidade. A aposentadoria chegou como um veredito de descanso, uma palavra que nos dicionários sugere o cessar das atividades. Para ele, o relógio não parou; ele apenas mudou de ritmo.
Durante décadas, Dedê foi um observador nas trincheiras do cotidiano. Com o passar dos anos, uma inquietação começou a germinar: a humanidade avançou de forma extraordinária na conquista da matéria — dominamos o átomo, o silício e o espaço —, mas continuamos tropeçando nos mesmos dilemas emocionais e sociais que nossos ancestrais enfrentavam à beira de uma fogueira.
Este livro é o fruto maduro dessas inquietações. Não espere aqui um manual de instruções ou um tratado acadêmico com verdades absolutas e notas de rodapé impessoais. Este é um livro de observações orgânicas. De perguntas que ardem.
Para entender o que Dedê pensa hoje é preciso primeiro voltar ao chão onde ele foi plantado.
Naquele final de tarde de julho de 1968, o mundo fervilhava entre rupturas sociais e conquistas espaciais, mas nada disso alcançava a calmaria do sítio onde Dedê veio ao mundo no município de Londrina. Não havia hospital num raio de muitos quilômetros. Havia apenas a terra. A casa era uma estrutura humilde no meio do mato, apelidada pela vizinhança de "caverna".
A infância de Dedê não foi medida por brinquedos de plástico, mas por responsabilidades de ferro. Aos sete anos, enquanto muitos meninos ainda aprendiam as cores, Dedê aprendia a logística da sobrevivência: vendia sorvete na periferia, carregando uma caixa de isopor maior que o próprio dorso, correndo contra o sol que ameaçava derreter a mercadoria antes da venda.
O prólogo segue acompanhando a infância de Dedê como boia-fria, engraxate e servente de pedreiro, até o livro que, na juventude, abalou pela primeira vez sua percepção sobre o poder da própria mente — o ponto de partida de tudo o que a obra desenvolve a seguir. A história completa está no livro.
Dedê conhece o sorvete que derrete. Conhece a sensação de carregar uma caixa de isopor maior que o próprio peito sob o sol das onze da manhã, sabendo que não existe negociação com a física. É com essa memória no corpo que ele observa, hoje, um automóvel deslizando suave entre o trânsito, sem pressa, sem buzina. O banco do motorista está vazio. Ou melhor: parece estar vazio.
Depois de vinte e seis capítulos argumentando que o volante da história sempre esteve em nossas mãos, a tecnologia responde com o carro autônomo — o motorista literalmente removido da equação. Mas o carro não refuta a tese da Maturidade Civilizatória: ele a radicaliza. Alguém programou aquele carro. Alguém escolheu os dados com que ele foi treinado, os valores embutidos em seu código. Esse alguém somos nós. E esse alguém ainda precisa, com alguma urgência, amadurecer.
O gelo derrete. A natureza não negocia. E o volante, mesmo quando ninguém o segura, ainda pertence a alguém.
"Se eu não for por mim, quem será por mim?
Mas se eu for só por mim, quem sou eu?
E se não agora, quando?"
Hillel, o Ancião (c. 110 a.C. – 10 d.C.)
"Torna-te quem tu és."
Friedrich Nietzsche (1844 – 1900)
Um dicionário busca o significado universal das palavras. Este glossário não é um dicionário: apresenta o significado que cada termo assume dentro desta obra específica. Os termos marcados com * são criações autorais — conceitos forjados por Dedê para nomear realidades contemporâneas.
Edvaldo, conhecido pelo apelido Dedê — que recebeu aos 17 anos, quando iniciou sua carreira pública como Contínuo na Prefeitura de Londrina —, viveu de perto os bastidores da administração municipal e a atuação de políticos de diferentes perfis, observando e participando da máquina pública de dentro. Essa experiência proporcionou a ele um olhar singular sobre o funcionamento das instituições, as complexidades do poder e as consequências das decisões no cotidiano das pessoas.
Ao longo de quase quatro décadas dedicadas ao serviço público, atuou principalmente na área de tecnologia da informação, onde construiu uma carreira sólida. Por mais de 20 anos, ocupou funções de gerência e direção em TI, coordenando equipes, liderando projetos e promovendo a participação da população em ações e programas diversos.
Após encerrar seu ciclo como Analista de Sistemas em 1º de janeiro de 2025, Dedê verteu décadas de vivência técnica em reflexão humanista. Neste livro o leitor não encontrará manuais de direção, mas um ponto de apoio para quem busca atravessar a modernidade com clareza de rumo e os pés no chão.
Esta é uma obra de caráter ensaístico; as opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor. Edição digital em texto refluível (reflowable), padrão EPUB — a numeração de páginas não se aplica a esta edição. Para referência, a obra corresponde a 220 páginas no formato impresso em tamanho 16×23cm, com edição prevista para lançamento até outubro de 2026.